Crônicas

Token inválido

O infarto foi fulminante.

Quatro tentativas de reanimação.

Nada.

Resistiu bravamente até a última atualização.

Merecia um fim digno.

Logo ao chegar à recepção, um rapaz o atendeu, solícito.

— Fique tranquilo: aqui, tudo tem solução.

— O senhor deseja fazer a migração completa?

Severo aceitou o pacote funerário.

Os universitários iniciaram o ritual de reencarnação.

Transplantada a memória.

O outro, novo, reluzente, exibiu seu sorriso de maçã.

Faltou a identidade.

— Agora é só atualizar o login dos bancos.

— Só?

Severo entrou no aplicativo.

Negado: Valide o token pelo Internet banking.

Perfeito! Tentou acessar o site.

Negado: Para iniciar o acesso valide pelo token no celular.

Arrepiou…

Tentou o atendimento no chat.

Uma voz metálica de boas-vindas:

— Estamos com muito tráfego no momento, o Sr. é o 12º na lista de espera, favor aguardar que logo mais vamos atendê-lo.

O som aumenta para as promoções de intervalo, até que outra voz entra na linha.

— Sou Larissa e vou prosseguir com seu atendimento. Conte em poucas palavras como podemos ajudá-lo.

Voltou ao ponto de partida.

— Troquei de celular. Preciso validar o token no site.

Mas o site pede o token do celular.

— Não entendi: Reformule sua pergunta.

— Validar o token.

Três pontinhos ondulantes, lá vem a resposta:

— Para validar o token, é preciso fazer uma transferência inicial no app.

— Obrigada pelo contato. Avalie sua satisfação com meu atendimento.

Severo, resiliente, volta ao app.

Acesso negado — token inválido. Necessário validar pelo Internet banking.

Uma lágrima surgiu.

O falecido nunca tinha duvidado que eu era eu.

Ana Helena Reis

Ana Helena Reis é paulistana, pesquisadora e empresária, com extensa produção de textos acadêmicos. Em 2019 começou a se dedicar à escrita literária e à ilustração de seus textos em prosa: contos, crônicas e resenhas, relacionados a fatos e situações do cotidiano. Publica em seu blog, Pincel de Crônicas, em coletâneas, e revistas eletrônicas. Em 2024 lançou seu primeiro livro solo, Conto ou não conto, pela editora Paraquedas/Claraboia, e, em Espanhol, Inquietudes Crónicas, pela editora Caravana/Caburé.

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